quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Sepultura

A Sepultura

Escolhi pedra a pedra; cada grão de terra, cada insecto devorador, cada pedaço de tristeza. Elegi-os ponderadamente: cada um mais perfeito que o outro! Faltava-me o sítio ideal... um lago sangrento carregado de sofrimento e dor; uma floresta escura, sombria e ilusória, vandalizada por almas perigosas... Seria assim o local da minha fusão de horrores, o local do meu além, o local mais perfeito para construir a minha eterna sepultura. Seria irónico dizer que esse sítio me caiu do céu mas na verdade assim foi... finalmente encontrei-o; um paraíso absoluto, um reino só meu que imergia a paz do inquietante e perturbador silêncio; o silêncio de todos aqueles momentos perdidos, de todas aquelas palavras que se sumiram do meu cérebro, que foram na sua generalidade, em vão.
Longe de tudo quanto era humano, pude apreciar calmamente aquele que apatir de agora seria para sempre o meu espaço, o meu mundo... o meu nada!
Voltei no dia seguinte. Caminhei ao anoitecer até ao local que elegi com todo o amor. Estava frio... tanto frio! O caminho enlameado dificultava-me a passagem; As raízes espinhosas das árvores que se estendiam até ao caminho fizeram-me tropeçar – arranharam e feriram-me arduamente o corpo: picadas dolorosas que me queimavam a película interior, a mente!
Recolhi os deliciosos espinhos, erva por erva, e segui caminho. Depois de tantas dificuldades cheguei! Atirei-me para o chão pantanoso e deliciei-me com o seu maravilhoso paladar! Acariciei-o, saboreei-o, cavei-o lentamente. Prezei aqueles doces instantes que nunca seriam repetidos durante toda a minha vida morte. Escavei cada parcela de terra delicadamente até obter uma cova profunda, e juntei então essas mesmas parcelas em torno da cavidade. Estava de facto, uma obra de arte! Era a minha sepultura que respirava liberdade, uma brisa incrivelmente natural. Diferente sim, mas única. A única sepultura que exibia a sua mais eloquente beleza! Para que precisaria eu de uma enorme pedra em cima depois de estar morta? Para ser mais uma campa comum? De nada me serviria!!
Depois de terminada, observo-a, aprecio-a obstinadamente até chegar a uma conclusão, a uma única palavra que descreva tamanha beleza... mas é demasiado perfeita, demasiado minha! Em frente á minha [futura] sepultura despeço-me de todos os momentos, da luz do sol, da escuridão da noite, dos sorrisos insaciados, das lágrimas sangrentas e de toda a (in)felicidade... atirando-me então para o vazio, para a profunda e deslumbrante incerteza do infinito, da minha perpetua sepultura
... E vejo-me para sempre no meu tão doce e desejado fim.

... And rest in peace...

5 comentários:

Andreia disse...

Os teus textos são tão profundos :$

Andreia disse...

Feliz Natal!

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